• Carmen Laveau

Festival MARSHA! Entra na Sala: novos caminhos de produção LGBT online

O festival LGBT online totalmente produzido por pessoas trans


O processo de pandemia do COVID-19, junto da necessidade de isolamento social no Brasil foram fatores determinantes para a fundamentação de novos rumos nas movimentações de arte e cultura no país. A coletividade MARSHA! em meio a esse momento extremamente vulnerável viu a necessidade de agir, não só pela continuidade de seus trabalhos, mas também pelo seu propósito de garantir a autonomia de pessoas trans e travestis além de tê-las como donas de suas próprias narrativas. Durante esse processo de pensar qual seria a melhor e mais efetiva forma de agir, foram se agregando outras potências ao coletivo até chegarem a formação atual com 15 pessoas trans e travestis de diversas áreas dos meios de produção artística.


E assim surgiu a iniciativa de um festival online, com a proposta desafiadora de movimentar renda através de um financiamento coletivo. Foram duas semanas de trabalho incessante para que tudo ocorresse de maneira organizada, o pouco tempo de produção deu-se pela urgência da situação e com excelência o projeto foi realizado nos dias 4 e 5 de abril de 2020.





Foram mais de 20h de programação online divididas nesses dois dias em lives pelo Instagram e exibição de materiais exclusivos no canal da coletividade no Youtube. Com 46 grandes artistas e articuladoras culturais LGBTQIA+ do cenário nacional e internacional compondo o line-up, diversos pontos de vista não-hegemônicos acerca dos contextos políticos e sociais foram levantados durante todo evento através de talks, shows, oficinas, performances e DJset. Sob uma narrativa de cura, não só do COVID-19 mas também sobre cura das violências coloniais que tanto permeiam nossas existências.



Nomes de peso como as deputadas estaduais Erica Malunguinho e Erika Hilton, Jota Mombaça, Linn da Quebrada, Ventura Profana e Podeserdesligado, Liniker, As Bahias e a Cozinha Mineira, Bixarte, Dudu Bertholine e a estilista Vicenta Perrotta fizeram parte da programação.



A utilização da economia criativa para gerar fomento e apoio a comunidade LGBTQIA+ no cenário pandêmico poderia ser vista como um tiro no escuro, dada a desestruturação econômica que o país já se encontrava, mas o comprometimento de toda equipe MARSHA!, além de todos os colaboradores, foi definitivo para o êxito do projeto. Planos financeiros e de comunicação foram desenvolvidos cuidadosamente para que cada vez mais pudessem alcançar mais pessoas, não só para que colaborassem mas para que também fossem assistidas pela arrecadação. A parceria com a organização LGBTQIA+ não governamental de São Paulo Casa Chama foi essencial para a realização do mapeamento de pessoas trans em grande vulnerabilidade.. Outra parceira da coletividade que patrocinou a movimentação do festival foi a loja colaborativa Translúdica.


Ao fim do financiamento coletivo a arrecadação havia atingido R$42.000,00, possibilitando que as mais de 50 pessoas envolvidas no projeto recebessem um valor digno pelos seus trabalhos, além de garantir para o fundo emergencial da Casa Chama 100 cestas básicas que foram redistribuídas por todo Estado.




O festival MARSHA! Entra na sala demarcou um novo capítulo para a coletividade, onde puderam em meio a uma catástrofe global fortificar ainda mais seus alicerces em prol de toda uma comunidade. No país que mais mata pessoas trans e travestis, a diferença está sendo feita e necessita que seja não só por essas corpas, mas por todas as pessoas que se comprometem com essa população.


Vocês podem conferir esse e os outros festivais da MARSHA! no canal do Youtube:

Festival MARSHA!

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